Murmuração - o pecado da ingratidão

Levantou-se, pois, toda a congregação e gritou em voz alta; e o povo chorou aquela noite. Todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e contra Arão; e toda a congregação lhes disse: Tomara tivéssemos morrido na terra do Egito ou mesmo neste deserto! E por que nos traz o Senhor a esta terra, para cairmos à espada e para que nossas mulheres e nossas crianças sejam por presa? Não nos seria melhor voltarmos para o Egito? - Números 14:1-3

A palavra “murmuração”, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, significa: “persistente reclamação”, “reinvindicação”, “descontentamento”, “falar mal de outrem em voz baixa, em segredo” ou “questionamento malicioso”.

Nesses dias, jovens e adultos, descontentes com a imoralidade política dos seus representantes nos três poderes da República, transformaram as principais capitais de todo Brasil em palcos de manifestações. Seus protestos foram reconhecidamente justos e dignos de serem considerados, pois rogaram pela punição dos corruptos, fortalecimento do sistema de saúde, humanização do transporte coletivo, dentre outras obrigações constitucionais da administração pública. A possibilidade dessas manifestações é um dos privilégios e responsabilidades de uma sociedade democrática. Não é errado reclamar quando a reinvindicação é justa e irrevogavelmente necessária. Por exemplo: os helenistas murmuraram contra os hebreus porque as suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária (At 6:1). Nesse caso a murmuração significou uma justa reclamação, sem denotação pecaminosa.

Contudo, em boa parte da Bíblia a murmuração é tratada como sendo mais que uma justa reclamação, e sim como um protesto da rebeldia, do egoísmo, da ingratidão e da difamação. Ou seja, é tratada como pecado.

O texto de Números 14:1-3 relata um dos momentos em que os israelitas murmuraram contra Deus, sendo Ele clemente e amoroso, e contra Moisés que fora designado para conduzir Israel pelo caminho que Ele mesmo dirigiu (Nm 14:14 cf. Êx 13:21, Ne 9:12). O povo de Israel murmurou frequentemente ao longo da sua peregrinação no deserto, e toda uma geração foi destruída por causa disso (1 Co 10:10-11).

Infelizmente, muitos são murmuradores, se queixam o tempo todo e por todo motivo, no contexto da sociedade, da profissão, da família e da igreja. Nada lhes satisfazem, já não conseguem reconhecer as benesses de Deus nesses contextos e serem sinceramente gratos. Para esses, ser grato é ser passivo ou omisso, e enchem os seus corações de amargura e seus lábios de injustiça.

Murmuradores são insaciáveis, porque suas expectativas são irreais e infantis. Veio João Batista, que não comia nem bebia, e disseram: “Tem demônio!”. Veio o Filho do homem, que comia e bebia, e disseram: “Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11:18-19). O tom geral dessa conduta do coração e do relacionamento, se resume no fato de, se não atender as falsas expectativas que criam, se não estiver de acordo com seus interesses infantis, murmuram. Não nos enganemos: a murmuração é pecado e, portanto, passivo da disciplina do Senhor.

A Bíblia diz: “Fazei tudo sem murmurações nem contendas, para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo...” (Fl 2:14-15).

Infelizmente, a murmuração, na qualidade de uma persistente reclamação, é um dos pecados mais comuns em nosso meio. Ninguém deveria tolerar o murmurador e suas reinvindicações porque a murmuração é pecado. Também, porque ela aborrece a paz e a tranquilidade com a rixa e o pessimismo (Pv 21:9).

Murmuradores são descontentes eufóricos. Grande parte dos nossos interesses jamais serão atendidos porque somos pecadores (Tg 4:1-3). Também, porque interpretamos mal a experiência da vida. Julgamos que o que dá prazer é sempre bom, e não admitimos que o desprazer de determinadas experiências seja eficazmente útil para tratar as nossas falsas expectativas e interesses egoístas (Hb 12:11; Tg 2:1-4). Por isso, o descontentamento gera a murmuração. Os cristãos são ensinados a se contentarem com as suas necessidades (1 Tm 6:7-8; Hb 13:5); porém o descontente, tendo suas necessidades mais fundamentais supridas, murmura, porque tudo tem de ser conforme os seus interesses ou modo de pensar. Também, o descontentamento gera o descaso com a palavra de Deus: “desprezaram a terra aprazível e não deram crédito à sua palavra; antes, murmuraram em suas tendas e não acudiram à voz do Senhor” (Sl 106:24-25). Murmuradores podem ter tudo, mas agem como se nada tivessem. Porém, os que dão crédito à Palavra de Deus experimentam o contentamento por confiarem no Senhor.

A Bíblia diz: “De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão” (1 Tm 6:6-11).

Murmuradores são caluniadores discretos. A palavra grega que traduz “murmuração” tem o sentido de murmúrio, resmungação, palavras desagradáveis ditas em voz baixa. O murmurador é aquele que, discretamente, espalha seus descontentamentos sobre determinadas pessoas e, com essa conduta, provocam dissensões. Geralmente agem assim pela firme certeza que estão mais certos do que os demais. Leia este relato: “Falaram Miriã e Arão contra Moisés,... E disseram: Porventura, tem falado o Senhor somente por Moisés? Não tem falado também por nós? O Senhor o ouviu… E a ira do Senhor contra eles se acendeu; e retirou-se” (Nm 12:1-2, 9).

As queixas dos murmuradores expressam, também, sua imensa inquietação com o crescimento dos outros. Se queixam da sua realidade e dos outros, pois são frustrados com as suas próprias experiências pessoais nos contextos da sociedade, ou da profissão, ou da família ou da igreja. São infelizes e amargurados consigo mesmos.

A Bíblia ensina substituir a murmuração pela ação de graças (1 Ts 5:18), porque somente a gratidão pode vencer o descontentamento do coração. Reconhecer as virtudes mais que os defeitos, as oportunidades mais que as dificuldades, o que já tem mais do que poderia ter, o que os outros fazem pelo nosso bem mais que aquilo que deixam de fazer e etc, dá a vida pessoal maior significado e felicidade pelos efeitos da gratidão (Fl 4:11-13; 1 Tm 4:4).

Que em nossos corações haja mais gratidão que ingratidão, haja mais contentamento que a perturbadora insatisfação, por confiarmos no Senhor as nossas vidas com tudo o que ela necessita.

No amor de Deus,

Ericson Martins

7 comentários:

  1. Eu tenho uma dúvida muito grande. Desabafar com a minha mãe é pecado? Ás vezes alguém me fala alguma coisa que me deixa magoada. Ás vezes as pessoas tocam no meu ponto fraco, e eu fico com muita vontade de chorar. E quando acontece isso me dá muita vontade de contar para a minha mãe e dizer o que estou sentindo, porque quando eu converso com ela me sinto aliviada, e quando eu não conto para ela o que aconteceu eu continuo triste. Já sou adulta, tenho 24 anos de idade, mas ás vezes minha mãe me conforta. Se quando acontecer alguma coisa ruim comigo e eu desabafar com a minha mãe estarei pecando?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Querida Raquel, obrigado por enviar o seu comentário!
      Bem, pecado é tudo aquilo que a Palavra de Deus claramente identifica como violação das leis de Deus. Portanto, o simples fato de você "desabafar" com a sua mãe, não pode ser pecado, pois não encontramos qualquer prova bíblica de que seja. Pelo contrário, compartilhar as suas aflições ou alegrias com a sua mãe é uma grande bênção, visto que é merecedora todo o respeito e honra. Mesmo que ela não tenha condições de te ajudar eficientemente, não deixa de ser uma bênção considerá-la, também, uma amiga especial.

      Excluir
    2. Tiago 5:16 - Portanto, confessem os seus Pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz.

      Excluir
  2. Bom dia!
    Agradeço pelo texto explicativo sobre murmuraçao.
    Desde sempre meu esposo reclama de tudo, sem causa, pq temos tudo que precisamos para viver bem.
    Li o texto para ele e espero que ele entenda que é pecado e deixe Deus agir, para que vivamos melhor. Obrigada, Deus o abençoe.

    ResponderExcluir
  3. Texto excelente! Claro, objetivo, profundo e realmente inspirado pelo Espírito Santo de Deus. Muito obrigada!

    ResponderExcluir
  4. Tinha muitas duvidas sobre murmuração mais agora que lhe esse texto falando ah respeito entendi o significado mesmo por ser uma pessoa que também gosta de murmurar em relação aos meus problemas e outras coisas que ñ concordo,como situações em que venha prejudicar o próximo e muitas e outras coisas que eu ñ consigo fica calado comigo mesmo e as vezes confesso com uma amiga ou amigo em relação o que esta acontecendo mais ñ no ato de promover discordia e sim de por pra fora essa situação que eu presenciei e que fica me remoendo por dentro. Sinceramente estou errado por me comporta desse jeito. Ass:valfredo santos. Bom dia!

    ResponderExcluir
  5. O ruim,nem sempre é o pior...
    Antes de murmurar...tome um copo de água...conte até...30seg.
    Em tudo daí graças ...
    Pare de reclamar um pouco,ao invés disso
    Agradeça...

    ResponderExcluir

Vídeos

Loading...